quarta-feira, 6 de abril de 2011

A GRANDE COLHEITA

POR: Johnny T. Bernardo


(Mapa: França Antártica)


No terceiro domingo de março de 1557, um pequeno grupo de crentes franceses se reuniram no Forte Coligny, na Baia de Guanabara (RJ) para a celebração da primeira santa ceia em território brasileiro. Coube ao pastor Pierre Richier conduzir a celebração. Doutor em Teologia e dois anos mais novo que João Calvino (seu professor em Genebra e mentor intelectual), Richier foi enviado ao Brasil a pedido do navegador francês Nicolas Durand de Villegaignon para auxiliar aos huguenotes radicados no Brasil e evangelizar os silvícolas fluminenses. Embora cristão de confissão católica, Villegaignon foi o primeiro a receber a ministração da ceia. Ajoelhado num coxim de veludo, o governador do Forte, em voz alta, proferiu longas orações, rendendo graças a Deus por ter sido chamado dos negócios mundanos, entre os quais vivia por apetite e ambição, para a obra de preparar um lugar e morada pacífica para aqueles que estavam privados de invocar publicamente o nome de Deus em espírito e verdade. Rogou a Deus para que o sítio de Coligny e país da França Antártica se tornassem um inexpugnável refúgio daqueles que, com boa consciência e sem hipocrisia, ali se abrigassem para se dedicar à exaltação da glória de Deus. Ainda suplicou a Deus o afastamento do espírito de vingança e que ficasse livre dos apóstatas da religião. [1]


(Simonton - Missionário Presbiteriano)


Por questões teológicas e influenciado pelas guerras religiosas que varriam a Europa, Villegaignon mandou estrangular e lançar na Baia de Guanabara cinco signatários da Confissão Fluminense: Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques Le Balleur. Apenas dois conseguiram escapar: André Lafon (por ser o único alfaiate da colônia) e Jacques Le Balleur (que fugiu para a vila de São Vicente e disseminou sua fé entre os nativos). Os demais entrariam para a História como os três primeiros mártires evangélicos das Américas. Apesar da perseguição e do domínio católico nas três décadas seguintes, a semente estava lançada. Em 7 de setembro de 1822, às margens do Rio Ipiranga, D. Pedro I proclamaria a Independência e dois anos depois daria liberdade de culto ao promulgar a Constituição de 1824. No mesmo ano, alemães fundariam a primeira comunidade luterana do Brasil. A cidade escolhida foi Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, e teve como principal organizador o pastor Friedrich Osvald Sauerbronn. A próxima cidade alcançada foi São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Depois da Igreja Luterana, o Brasil viu o surgimento dos Congregacionais (1855), os Presbiterianos (1859), os Metodistas (1867), os Batistas (1882) e os Episcopais (1889).



(Fundadores da Assembleia de Deus no Brasil)


No começo do século XX, entretanto, o Brasil seria palco do surgimento da maior força evangélica nacional: os pentecostais. Após participarem de uma reunião pentecostal na Rua Azuza, em Los Angeles, EUA, Daniel Berg e Gunnar Vingren desembarcaram em Belém do Pará e fundaram a que seria a maior igreja pentecostal brasileira – a Assembleia de Deus. Dos quase 30 milhões de evangélicos existentes hoje no Brasil, pelo menos 18 milhões são membros das Assembleias de Deus. Paul Freston chama esse período de “a primeira onda do pentecostalismo brasileiro”. Foi, de fato, a primeira onda que daria origem a inúmeras outras, como a Igreja de Cristo no Brasil (1932), O Brasil para Cristo (1950), Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962) Igreja Cristã Maranata (1968) etc. Ao chegar à década de 70 um novo movimento toma conta do Brasil: o Neopentecostalismo. Com denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus (1977), a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980) e a Igreja Apostólica Renascer em Cristo (1986), a teologia da prosperidade e cura divina passam a fazer parte do universo religioso brasileiro. Através do uso maciço da mídia (principalmente da televisão) milhares de pessoas são conduzidas todos os dias para os templos neopentecostais, onde pastores treinados e pagos pelo ministério oferecem cura e prosperidade em troca de dízimos e ofertas – são “sacrifícios de fé”, dizem eles para multidões de almas carentes



(A primeira Ceia Protestante no Brasil)


Em resposta, a Igreja Católica aderiu ao movimento conhecido nos EUA como Renovação Carismática e passou a copiar a liturgia e os cânticos evangélicos. Merecem destaque os padres Fábio de Melo e Marcelo Rossi que juntos reúnem multidões de católicos com letras como “Tem anjos voando neste lugar” e “Faz um Milagre em Mim”, ambos de autoria evangélica. Católicos tradicionais temem que tal aproximação possa desestruturar ainda mais a já fragilizada Igreja Católica, com a saída em massa de fieis para os arrais evangélicos – algo que aconteceu nos EUA, quando até então os católicos da Universidade de Duquesne eram conhecidos como “católicos pentecostais” (termo abandonado em 1974, para se diferenciar das demais igrejas evangélicas americanas). Insatisfeitos com a influência do Papa no movimento e contrários a dogmas como a “virgindade perpétua de Maria”, muitos deixaram o catolicismo e se converteram ao pentecostalismo evangélico. Outro movimento que preocupa os católicos é o crescimento acelerado das chamadas “igrejas em células” ou “igrejas na visão de Bogotá”. Criada em 1991, em Bogotá, Colômbia, pelo pastor César Castelhanos Dominguez, o G12 (modelo dos 12) diz ter sido inspirado no trabalho desenvolvido pelo pastor David Young Sho, cuja igreja – a Full Gospel Church, na Coreia do Sul – é considerada a maior do mundo, reunindo perto de 600 mil pessoas. Em seu livro “Sonhas e Ganharás o Mundo”, Castelhanos revela detalhes da “revelação” profética que teria recebido diretamente de Deus em 1991. "Em 1991, sentimos que se aproximava um maior crescimento, mas algo impedia que o mesmo ocorresse em todas as dimensões. Estando em um dos meus prolongados períodos de oração, pedindo a direção de Deus para algumas decisões, clamando por uma estratégia que ajudasse na frutificação das setenta células que tínhamos até então, recebi a extraordinária revelação do modelo dos doze. Deus me tirou o véu. Foi então que tive a clareza do modelo que agora revoluciona o mundo quanto ao conceito mais eficaz para a multiplicação da igreja: os doze. Nesta ocasião, ouvi o Senhor dizendo-me: vais reproduzir a visão que tenho te dado em doze homens, e estes devem fazê-lo em outros doze, e este, por sua vez, em outros doze.” [2]



Convicto de que o caminho estaria aberto, Castelhanos implantou o modelo dos 12 em sua igreja e, em pouco tempo, viu seus membros se multiplicarem com rapidez e novas igrejas tiveram de ser abertas para abrigar os novos crentes. Pelo menos mil pessoas se convertem toda semana na sede de Bogotá e em reuniões que passam de vinte mil no estádio municipal. São pelo menos 200.000 membros e 45.000 células em atividade em Bogotá, fazendo com que a Igreja de Castelhanos seja a maior da América Latina. No modelo dos 12, cada membro da equipe é considerado um líder em potencial. O trabalho desse líder será de fazer está célula se multiplicar, através da escolha de outros doze. Estes outros doze trabalham visando à multiplicação, e assim sucessivamente. Um membro de uma célula pode ter uma segunda ou terceira célula, na escola ou no trabalho, visando o alcance de novas pessoas. Também são comuns os encontros. Para que um crente tenha êxito em sua vida, ele precisa passar por encontros, que são retiros espirituais de três dias, durante os quais são ministradas palestradas de cura interior, arrependimento e maldição hereditária. No Canadá, onde o G12 foi recebido com entusiasmo pelas igrejas evangélicas, a unção de Toronto ficou conhecida no mundo inteiro pela maneira nada dogmática como seus membros manifestam a virtude do Espírito. Enquanto o dirigente ora e ministra a unção, as pessoas vão tombando, sendo amparadas por obreiros que se posicionam previamente atrás delas. Além da oração que provoca quedas, a Comunidade de Toronto notabilizou-se por outras manifestações, como a unção do riso, pela qual o fiel começa a rir descontroladamente durante as reuniões e o milagre do dente de ouro – que fez muito sucesso no Brasil nos anos 80. [3] Trazida para o Brasil pelos pastores Renê Terra Nova, da Primeira Igreja Batista da Restauração de Manaus (AM) e posteriormente pela Sra. Valnice Milhomens, dirigente da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, com sede em São Paulo, a igreja em células ganhou guarida nos lares de milhares de brasileiros e já é uma das maiores autoridades do mundo no Modelo dos 12. Igrejas de pouco menos de 20 membros hoje contabilizam uma média de cinco a seis mil crentes que frequentam os cultos regularmente. Um exemplo de sucesso é a Igreja Presbiteriana Independente de Londrina, que desde 1998 trabalha na visão de Bogotá e conta hoje com cerca de três mil membros e pelo menos 85 células. Outra, a Igreja Batista Água Viva de Mauá (SP) já conta com três igrejas e centenas de multiplicadores que mensalmente formam novas células. Há ainda outros exemplos, como a Igreja do Evangelho Quadrangular, cuja adesão à visão de Bogotá se deu por intermédio do pastor Daniel Martins, o Ministério Fonte da Vida e a Igreja Videira do Rio de Janeiro.



UMA GRANDE COLHEITA


Destarte toda polêmica em torno de movimentos como G12, Neopentecostalismo e até mesmo de algumas igrejas pentecostais, os evangélicos são hoje uma força em ascensão no Brasil. Apesar de nova – com apenas 150 anos de existência – a igreja evangélica brasileira já possui cerca de 30 milhões de membros, espalhados pelas mais de 188 mil igrejas locais (protestantes, pentecostais e neopentecostais). O avanço dos evangélicos brasileiros têm sido foco de debates intensos na TV e nos meios de comunicação em geral, como nas revistas Veja, Época e Superinteressante que em matérias de capa e na Internet exploram o tema ao máximo. Na matéria “Evangélicos”, a Superinteressante de fevereiro de 2004 abre a discussão com o lead: “Não dá mais para fingir que não vemos. Um a cada seis brasileiros já é evangélico – e o número continua crescendo. Se você quer entender o Brasil e antever o futuro, precisa antes saber como isso foi acontecer”. Em outra publicação, a revista Veja revela: “O país mais católico do mundo está ficando cada vez mais evangélico. O resultado do censo demográfico no quesito religião, divulgado neste ano, mostra que mais de 15% dos brasileiros – um rebanho de 26 milhões de pessoas – são protestantes. É um porcentual cinco vezes maior que em 1940 e o dobro de 1980. Em estados como Rio de Janeiro e Goiás, o índice supera 20% dos habitantes. No Espírito Santo e em Rondônia, os evangélicos passam de um quarto da população. Esse ritmo indica que metade dos brasileiros poderiam estar convertidos em cinco décadas – um tempo mínimo quando se fala de avanço religioso”. [4] Mais recente, a matéria “Os Novos Evangélicos” (edição comemorativa de 25 anos da revista Época), o autor Ricardo Alexandre dá destaque a um novo fenômeno que se alastra pelo Brasil: os crentes desigrejados. Trata-se de um movimento que começou nos EUA e logo se alastrou para o mundo, com livros como “Revolution” de George Barna (2005), Life After Church de Brian Sanders (2007) e Pagan Christianity? Exploring the roots of our church practices de Frank Viola (2008). Tais obras lançam a reflexão sobre a necessidade dos crentes deixarem suas igrejas e experimentarem um novo modelo de culto, em casas e em cafeterias onde todos os domingos pela manhã amigos se reúnem nos EUA para orar e meditar nas Escrituras.


PRÓS E CONTRAS


Não obstante o rápido crescimento dos evangélicos em nosso pais, ainda não temos motivos suficientes para festejar. Os dados são alarmantes. Pelo menos 1.133 municípios no Brasil contam com apenas 5% de evangélicos. Umas poucas cidades chegam a ter cerca de 30%. Existem cerca de três mil povoados sem presença evangélica no Amazonas. Em regiões como o interior do Nordeste e sul do Brasil, a presença evangélica permanece extremamente frágil e com números abaixo da média nacional. Apesar do esforço das mais de 100 agências missionárias brasileiras, ainda resta uma boa parte do país para ser alcançado – e isso também é uma realidade.


Referências Bibliográficas


1. Hack, “Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial’’, p. 119; 2. CASTELLANOS, César Domínguez. Sonha e Ganharás o Mundo. São Paulo, SP: Palavra da Fé Produções LTDA, 1999. 3. A Polêmica do G12, Carlos Fernandes e Francisco Brandão, revista Eclésia, agosto de 2000, p. 20 4. Nação Evangélica, Veja, março de 2002


ARTIGO EXTRAÍDO EM: http://www.genizahvirtual.com/2011/03/grande-colheita.html#ixzz1ImbCsBrN Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial Share Alike

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