quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O FALECIMENTO DA EXORTAÇÃO E O NASCIMENTO DO SIGILO

“De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus.” (2 Coríntios 5.20)


Cada vez mais o nosso tempo tem empobrecido as pessoas, com o intuito de ditar uma forma de relacionamento no qual impera uma blindagem individualista, cuja consequência mais marcante é o impedimento de haver orientação, aconselhamento, exortação. Levantamo-nos e dizemos a todos aqueles que vêm para nos orientar, quando laboramos em algum erro, que somos adultos e sabemos o que fazer de nossa vida. Construímos barreiras para que ninguém tenha a liberdade de se dirigir a nós com palavras orientadoras, sábias e preocupadas. Basta olharmos como muitos têm tratado as pessoas mais idosas: o respeito foi perdido completamente, em muitos tratamentos, já não se olha mais para o ancião como aquele que tem experiências que podem ensinar, não se vê mais na figura dos mais velhos as cãs que são expressão da sabedoria e da honrosa vivência, desdenha-se o valor que a exortação e o cuidado dos mais velhos têm sobre os mais jovens. Achamos que não precisamos mais dessas palavras sábias, dos atos comedidos que servem de exemplos para nós, da maneira mais serena de levar a vida, da forma mais branda e moderada de tratar os problemas. Achamos que somos bons demais e que sabemos tomar nossas próprias decisões, baseados em nossas aptidões e qualidades que adquirimos.

Não se aceita mais exortação. Nem mesmo nas igrejas temos tido facilidade em lidar com isso. Pensamos que os nossos problemas devem ser tratados apenas por nós mesmos e da maneira que entendemos que eles devam ser resolvidos. Não abrimos espaço para recebermos a exortação. Vemos atualmente o falecimento da exortação e, na mesma celeridade em que ela entra em decadência, vemos nascer de forma robusta e alígera o sigilo. Queremos vidas sigilosas e que não permitam que nenhuma exortação venha à tona.

Ao observarmos o verbo exortar (parakaléo) na língua grega, temos, pelo menos, 16 sentidos para ele, conforme o Léxico Grego Analítico de Harold K. Moulton (p. 314), tais como: “requerer, convidar para vir, mandar buscar, apelar para, exortar, admoestar, persuadir, implorar, suplicar, rogar, animar, encorajar, confortar, consolar, ser confortado, encorajado”. Temos aqui a riqueza do sentido da palavra exortar expressa no Novo Testamento, mas que hoje tem sido observada de forma pejorativa, aviltada pela nossa postura de antiautoridade.

No texto mencionado em tela, Paulo entende que foi chamado para ser usado pelo Senhor no ministério de exortação, de admoestação, de conforto, etc., e, desta forma, ele tinha a responsabilidade de chamar os irmãos a que se reconciliassem com Deus. Eis o caminho árduo para o pastor e para as ovelhas: o momento da exortação! Aqui temos de forma cristalina a percepção da causa mortis da exortação dentro das igrejas atualmente. O falecimento da exortação acontece com o nascimento do sigilo. E tal sigilo se dá, como aqui o concebemos, nos dois pólos desse relacionamento:

OS PASTORES QUEREM SIGILO. A igreja vai bem, a relação com as ovelhas também, o salário é bom, os líderes não incomodam, desta forma, para que exortar alguém? Posso continuar o meu ministério tranquilamente, sem desconfortos na relação com os irmãos. É assim que muitos pastores agem, eles temem perder o gabinete bem refrigerado, com uma poltrona assaz agradável, com um computador de última geração e a comodidade de uma relação tranquila com suas ovelhas. Essa relação pode até estar com ares apaziguadores, mas cheira morte. Tais pastores querem sigilo em seu trabalho, em nome de um volumoso acúmulo de regalias, eles se furtam a exortar o povo a entrar em reconciliação com Deus. Deixam de falar em pecado, de desafiar a igreja a ter uma vida de santidade, de proclamar as verdades ácidas do evangelho contra nossos corações corrompidos. A exortação morre quando pastores querem sigilo no seu pastorado.

Mas há o outro pólo que produz o falecimento da exortação, que acontece quando:

AS OVELHAS QUEREM SIGILO. A exortação não tem apenas, como muitos pensam, o caráter de uma rude censura, mas igualmente ela abarca o intento do consolo, do ânimo, é o sentido etimológico da palavra grega a qual analisamos por hora (para ­[próximo, perto de, ao lado] + kaléo [chamar, convidar]), é chamar para o lado, para o caminho, para perto de si. Todavia, muitas ovelhas não querem isso, elas querem o sigilo, elas querem vidas que não sejam conhecidas, elas não querem ser exortadas, querem conviver com seus erros e pecados e não receberem nenhuma orientação. A exortação morre quando ovelhas querem sigilo em suas vidas. Muitos crentes não recebem a exortação de Deus, não querem nenhum tipo de correção, acham que estão no caminho certo, mesmo seguindo seus próprios interesses em vez de seguir os mandamentos do Senhor. Ovelhas que vivem assim, não poderão desfrutar das bênçãos da exortação, que também tem o objetivo de nos consolar e nos animar em nossa caminhada.

Meu desejo é que façamos aquilo que foi solicitado pelo autor da carta aos Hebreus, falando sobre todo o conteúdo daquela missiva: “Rogo-vos ainda, irmãos, que suporteis a presente palavra de exortação; tanto mais quanto vos escrevi resumidamente” (Hb 13.22).
Soli Deo Gloria.
Rev. Junio Cezar da Rocha Souza

Nenhum comentário:

Postar um comentário